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domingo, 31 de maio de 2009

LIPSTICKS AND EYES


A mulher estava la. Ele também.
A cinco palmos de balcão surrado e o cheiro do cinzeiro molhado pairava no ar. O lugar talvez não fosse digno da conduta e semblante daquela mulher que ali estava, inclusive parecia desambientada.
Ela pediu o café, olhando a toda volta, inclusive o relógio, com olhar de insatisfação.
Os olhos dele registravam com insegurança mas com tamanho desejo de lhes acompanhar.
Timido, disfarçava a qualquer sinal de desconfiança suas ações.
Ele analisou a xicara, parecia procurar vestigios, girando em volta do pires, sacudiu o saquinho nas mãos e despejou naturalmente sobre o café quente, a fumaça o denunciara.
Ele ficou com receio de pedir o de sempre e dispensou sua pedida de todos os dias, assim que o garçom lhe perguntou de um grito - o de sempre patrão ?- ele levantou e acenou a mão em negativa em cumplicidade com aquele que o indagara, entendido o recado, lhe trouxe um café e não antes da dama também acendeu o cigarro. Gostaria de ter o feito antes, pois assim poderia lhe oferecer fogo, isto é, para acender o seu cigarro ao menos.
Ela se ajeitou frente ao balcão, trouxe o cinzeiro para perto, cruzou as pernas revelando uma bonita sulhueta, com ar sedutor deu um longo gole no café, mas tão intenso, que ele sentiu tão igualmente o nó na garganta se dissolver e assim como o café um frio seguido de um grande calor descer pela sua espinha.
Ele franziu o cenho, não saberia desvendar se fora uma provocação e isso lhe deixou nervoso.
Ela então parou os olhos e pareceu perder-se nos próprios pensamentos e sem querer ele não se vira, mas está completamente emergido na observação, tornando-se objeto da ação, mas ela se quer poderia imaginar,tão longe agora do mundo, poucas das vezes que voltou, perdia-se novamente naquele mundo peculiar e intimamente atordoador, a julgar pela forma como respirava lentamente e mordia os lábios parecendo remoer algo. Mais uma vez o cefé sem gosto e agora frio, talvez.
Para quebrar o tédio, alguma coisa pareceu desaflorar dentro de sua cabeça, alguma imagem ganhou foco, alguma dor desatinou e ela se pôs a chorar, não com o corpo, mas passível e enviasado dentro do seu corpo discreto, dentro da sua postura de madame, surgira uma lágrima, suficientemente incorpada fazendo rolar no canto do olho esquerdo, penosa e longa.
Até então ele não entedera como se conectara à imagem da mulher ou como tornara-se objeto de observação, para não falarmos de desejo. Era fato que estava envolvido a ponto de sofrer pelo seu pesar e imaginar o que de fato lhe ocorrera. Foi então que aconteceu. A lágrima morna que rolava ao canto dos olhos, despertou a donzela do seu encantamento que há poucos minutos lhe fixaram num mundo paralelo e ela descobriu sem querer o olhar manso e indagador do coadjuvante da cena. Seus olhos se encontraram tempo suficiente para trazer contrangimento e ele despejou em si mesmo a xicara de café durante o desconserto fazendo corar as bochechas.
Ela levantou-se de um salto e com um unico gesto pegou seus pertences, tirou uma nota e colocou-a sobre o balcão, tudo em gestos rigidos e sérios. Em seguida, caminhou em direção a ele ainda tentando livrar-se de toda a bebida que derramara em suas vestes e de todo o seu constrangimento. Ainda com os olhos baixos a viu parar a poucos centimetros e seu perfume sobrepôs-se ao cheiro forte de café barato.Ele podia ver há poucos centimetros a meia fina que desenhava pernas torneadas e delicadas e enquanto subia os olhos encontrou sua mão fina e delicada sob a cintura numa linda silhueta. A mão livre lhe entregara um lenço tão perfumada quanto a dona.
Isso pareceu atordoa-lhe a mente de tal forma que antes mesmo que pudesse recebê-lo, pensar e engolir seco, a ação inesperada da moça, a mesma já cruzara a saida, deixando no chão o lenço marcada pela pintura seu rosto e da lágrima que caia de seus olhos furtivos.

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